A Ferida da Criança — Da Origem à Vida Adulta - 2 / 10

 A Rejeição na Vida Adulta: a fuga da intimidade

A ferida da rejeição não fica na infância. Cresce contigo, troca de roupa e disfarça-se de personalidade adulta. E onde mais se denuncia é na forma como vives o Amor. 

Em termos da teoria do apego (desenvolvida por John Bowlby e Mary Ainsworth) a criança que se sentiu rejeitada tende a desenvolver, em adulta, um apego evitativo. Bowlby observou que crianças cujas necessidades de proximidade foram repetidamente recusadas aprendem a desligar essa necessidade. Não porque deixem de a ter , mas porque doeu demasiado tê-la e não ser correspondida. Então fazem o mais inteligente que conseguem: convencem-se de que não precisam de ninguém.

Vês isto no dia a dia de mil formas. És a pessoa que diz "eu estou bem sozinha". É em parte verdade, mas é também uma armadura. Da pessoa que se sente sufocada quando alguém se aproxima demais. Que sabota relações boas exatamente quando se tornam sérias, porque a intimidade ativa o velho alarme: se eu deixar entrar, vou ser rejeitada outra vez. Preferes rejeitar primeiro. É menos doloroso seres tu a fechar a porta do que esperares que a fechem na tua cara.

A rejeição também aparece longe do amor. No trabalho, és aquela que tem ideias brilhantes mas não as partilha na reunião por medo de a acharem parva. Que evita o palco, o protagonismo, a visibilidade. Que prefere o anonimato confortável a arriscar a exposição. Há aqui, muitas vezes, um perfeccionismo silencioso: só mostro quando estiver perfeito. E como nunca está, nunca mostras. A fuga continua, agora vestida de modéstia.

Nas relações sociais, é a sensação persistente de estar "a mais" no grupo. De que te toleram, mas não te escolhem. De interpretares qualquer silêncio, qualquer convite não feito, como prova de que tinhas razão desde sempre. A tua mente está treinada para procurar rejeição em todo o lado. E quem procura, encontra.

O preço desta ferida é a solidão. Não a solidão escolhida e nutritiva, mas a do isolamento. Constróis uma vida em que ninguém te pode magoar porque ninguém chega perto o suficiente. E depois perguntas-te porque te sentes tão só.

A boa notícia? O apego não é um destino. Bowlby e os investigadores que o seguiram mostraram que estes padrões, embora formados cedo, podem ser reescritos. Cada vez que ficas numa relação em vez de fugires, que dizes uma opinião em vez de a engolires, que te deixas ver, estás a ensinar à tua criança interior que o mundo de hoje não é o mundo de então.

A intimidade que tanto temes é, afinal, exatamente aquilo de que mais precisas.

Se reconheces este padrão de fuga, ele pode mudar. O trabalho com a criança interior é precisamente isto: reescrever o que ficou gravado. Marca uma sessão comigo aqui

E se queres descobrir a tua ferida, faz o quizz aqui

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Criança que Ainda Vive em Ti - Série - 1/10

A Criança que Ainda Vive em Ti - Série - 7/10

10 Sinais de Apego Emocional (e como isso pode estar a afetar a tua vida sem perceberes)