A Ferida da Criança — Da Origem à Vida Adulta - 1 / 10
A Ferida da Rejeição
Há uma ferida que se instala antes de quase todas as outras: a rejeição. Não é a rejeição de uma ideia tua ou de algo que fizeste — é a sensação, gravada muito cedo, de que tu, o teu ser, não tinha lugar. De que a tua simples existência incomodava.
A rejeição é descrita como a primeira e a mais profunda ferida da Criança.
Forma-se, muitas vezes, na relação com o progenitor que a criança sentiu não a querer ali — por um olhar que se desviava, por uma frieza, por uma frase dita sem peso aparente: "não estava nos planos", "foste uma surpresa", "se não tivesses nascido…". A criança não percebe o contexto adulto por trás destas palavras. Apenas sente. E o que sente é: eu sou a mais.
A rejeição também nasce do subtil. Um bebé que chora e não é pegado ao colo. Uma criança comparada constantemente com um irmão "mais fácil". Um pai que só se aproxima quando há notas boas para mostrar. Não é preciso violência para deixar marca. Basta que a criança aprenda que o seu valor não é dado, tem de ser merecido, e talvez nunca chegue a sê-lo.
Para sobreviver a esta dor, a criança cria aquilo a que Bourbeau chama a máscara do fugitivo.
É a estratégia mais lógica do mundo na mente de uma criança... Se a minha presença não é bem-vinda, eu desapareço. A criança fugitiva torna-se discreta, quase invisível. Fala pouco. Ocupa pouco espaço. Aprende a fugir. Para dentro de si, para a fantasia, para os livros, para um mundo interior onde ninguém a pode magoar. Fisicamente, muitas vezes, é o corpo que se encolhe, magro, contraído, como que a pedir desculpa por existir.
O mais doloroso da ferida da rejeição é que ela se autoalimenta. Quem se sente rejeitado retira-se. E quem se retira é, naturalmente, menos visto, menos procurado, menos amado, o que confirma a crença original. Estás a ver? Eu não era para aqui chamada. A profecia cumpre-se sozinha.
Reconhecer esta ferida é o primeiro passo para a desarmar. Se te identificas com esta sensação antiga de não pertencer, de seres "demais" ou "de menos", de quereres desaparecer quando a atenção se vira para ti, não é um defeito do teu carácter. É uma criança que, há muito tempo, decidiu que era mais seguro ser invisível do que arriscar não ser querida.
E essa criança ainda vive em ti. Não para te limitar, mas à espera de finalmente ouvir que sempre teve lugar.
Identificas-te com esta ferida? No próximo artigo vais perceber como ela molda a tua vida adulta. E se quiseres começar a trabalhá-la, fala comigo aqui
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